CARTA ABERTA A EXCELENTÍSSIMA MINISTRA DA MULHER, FAMÍLIA E DIREITOS HUMANOS, SENHORA DAMARES ALVES.

Em primeiro lugar quero parabenizá-la pelo cargo que, ora, Vossa Excelência ocupa. Sei das inúmeras tarefas de V. Excelência, mas permita-me dirigir-lhe esta carta aberta, como uma contribuição ao diálogo saudável e republicano. Reconheço que num Brasil de altíssimas taxas de feminicidio, de intolerância e violência contra os direitos básicos das minorias, os desafios de seu Ministério são imensos.

Meu nome é Elizete da Silva, nascida no Recôncavo da Bahia, criada na Escola Bíblica Dominical de uma Igreja Batista, na qual meu pai era diácono, onde recebi as primeiras e inesquecíveis lições sobre ética, solidariedade cristã e que o Reino de Deus è Justiça e Paz. Há quatro décadas sou professora de História na Universidade Estadual de Feira de Santana, estudiosa do campo religioso brasileiro e educadora preocupada com a juventude brasileira e o seu futuro.

Como o Brasil é uma república laica, todas as manifestações religiosas devem ser respeitadas, inclusive o direito da Senhora Ministra ser “terrivelmente cristã,” contudo, convém destacar que o Brasil não é uma sociedade cristã, o campo religioso brasileiro é plural, o qual abriga cristãos de várias denominações, espíritas, religiões de matrizes africanas, islâmicos, judeus, budistas e ateus, que merecem ser respeitados nas suas crenças ou descrenças, como um direito constitucional e garantido pela Declaração dos Direitos Humanos. Penso que a Pastora Damares não deve confundir-se com a Ministra Damares. A Ministra de Estado não deve fazer proselitismo, como uma pregadora. Caso contrário estará regredindo ao estatuto colonial, quando vigia o Padroado Régio da Igreja Católica, só que agora um Padroado Evangélico.

Os evangélicos, como os católicos sempre fizeram catequese aos indígenas, como pastora, a Senhora Ministra dedicou-se a uma ONG, que evangelizava indígenas. Convém esclarecer que no processo de evangelização não está incluído o sequestro de crianças ou o desenraizamento dos inocentes de seus lares. Se alguns missionários praticaram tais atos devem ser condenados, conforme a legislação vigente no País. A adoção de uma menina indígena é uma atitude pessoal da Pastora Damares, mas convém explicar, em bom português, os trâmites que foram seguidos evitando equívocos perniciosos à sua imagem e a dos evangélicos em geral.

A presença das mulheres em funções públicas é algo novo na História mundial e do Brasil, resultante da luta histórica de centenas de mulheres que ousaram questionar as relações androcéntricas, que colocavam os homens em superioridade. As sufragistas e as feministas do século XIX foram as primeiras no mundo contemporâneo a questionarem a primazia masculina. Excelência, as mulheres evangélicas ou protestantes foram parceiras fieis a encetarem essa batalha por direitos iguais e escreveram uma Bíblia da Mulher, lideradas por Elizabeth Stanton, para desmistificar a submissão imposta nas Igrejas Protestantes pelos pastores. Não confundir com as Bíblias de capa rosa, que são vendidas no mercado, atualmente. A Bispa Anglicana Dr. Bianca Daeb`s Almeida está organizando uma tradução em português, que virá a lume brevemente. A leitura deste livro trará benefícios no exercício ministerial e pastorado.

Hoje, a Senhora Ministra está usufruindo da luta dessas pioneiras sufragistas, da abolicionista Isabel Beaumfoert, ou Sojurner Truth, uma mulher negra evangélica, de origem Quaquer (protestantes dissidentes antiescravistas), que ficou célebre pelo seu contundente discurso E eu também não sou mulher? pronunciado na Convenção das Mulheres pelo Sufrágio nos Estados Unidos em 1867. Na atualidade, esta luta continua com muitas mulheres, que merecem respeito, não são feias, são lindas, poderosas e necessárias como vigilantes dos Direitos Humanos, são advogadas, professoras, donas de casa, trabalhadoras em geral, artistas defendendo seus direitos como seres humanos, plenas de dignidade e inteligência, tal qual os seres humanos do sexo masculino.

Fiquei estarrecida com o pronunciamento no Dia Internacional da Mulher da Senhora Ministra: afirmar que a luta das mulheres por igualdade de direitos estimula o feminicidio é o mesmo que dizer que as vítimas são as culpadas pela violência, que as abusadas sexualmente provocam os seus agressores. Uma verdadeira inversão de valores, em que o legítimo e o justo são equivocadamente confundidos com o erro e a perversão. “Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça”. (JOÃO 7:24,BÍBLIA). Ministra, por favor, o treinamento de cabelereiro e manicures para observar se as mulheres estão sendo espancadas é perfumaria, parece um deboche diante da gravidade da situação, que demanda do seu Ministério POLITICAS PÚBLICAS EFICAZES e preventivas para livrar meninas e mulheres do machismo criminoso.

No texto bíblico está escrito que Deus criou o homem e a mulher a sua imagem, (Genesis1:27, Bíblia) portanto sem qualquer laivo de inferioridade. Esta atitude machista foi desenvolvida no mundo judaico- cristão, como um equivoco que a queda e o pecado entraram no mundo por causa de Eva e recai sobre ela e nós todas a culpa pela loucura do mundo. Senhora Ministra, Eva, a Mãe de todos os viventes, comeu o fruto do conhecimento do bem e do mal, sem ela não teríamos cultura, conhecimento, seriamos bonequinhas, todas elas brancas, a passear no Jardim do Éden.

Durante a Idade Média, as mulheres ficaram segregadas. Com a Reforma Protestante (1517) e o resgate da doutrina do sacerdócio universal dos cristãos, as mulheres passaram a outro patamar, diante de Deus estão em pé de igualdade com os homens. E desde o século XVI mulheres estão reivindicando o pastorado, que a Senhora Ministra também exerce numa igreja evangélica e foi resultado da militância de muitas mulheres que nos antecederam. A História está plena de exemplos de mulheres que lideraram movimentos coletivos em defesa da dignidade e da liberdade da humanidade e o fizeram a partir de suas comunidades religiosas.

Senhora Ministra, as mulheres não devem apenas administrar a cozinha de suas casas ou ficar no cotidiano doméstico. Devemos educar as nossas meninas para serem estudiosas e profissionais competentes com atuação no mercado, tal qual os meninos. A metáfora da cor de roupa, rosa ou azul, que devemos usar em meninos e meninas proferida pela V. Excelência, em profunda êxtase, no meios televisivos não transforma uma criança, ou melhor, um ser humano, em bom cidadão: meninos e meninas precisam de uma educação sólida, na qual a ética, a solidariedade e o respeito às diferenças sejam valores inquestionáveis: “Ensina a criança o caminho em que deve andar e até quando envelhecer não se desviará dele” (PROVÉRBIOS. 22:6, BÍBLIA).

Nossas crianças e a juventude precisam de boas escolas públicas, de tempo integral, com professores capacitados e bem remunerados, o lar não é o lugar adequado para a formação escolar. No Brasil Imperial, a aristocracia pagava os preceptores para educar seus filhos. Que camadas sociais poderão arcar com tais despesas atualmente? Com esta proposta as camadas populares, nas quais pai e mãe precisam trabalhar que tempo terão para escolarizar os seus filhos? Pais muitas vezes analfabetos e sem escolarização terão condições de bancar a educação escolar feita por eles mesmos e privada? Conforme o IBGE, 50 milhões de brasileiros vive na linha da pobreza, isto significa que se tal proposta vingar, certamente, pais trabalhadores, pobres e geralmente afrodescendentes não terão o direito à educação de seus filhos.

A escola democrática para todos como entendemos hoje, para meninos e meninas de todas as idades e camadas sociais, Senhora Ministra, é parte do ideário protestante desde o século XVII. Como pedagoga, V. Excelência deve saber que o primeiro livro de didática, A Didática Magna foi escrito pelo pastor e educador Amós Comenius, um Irmão Morávio, nascido em 1592. No Brasil e em vários países os evangélicos sempre construíram escolas ao lado dos templos e colégios de grande porte, que se tornaram referência pelo ensino de qualidade.

A homeschooling é um mau exemplo da sociedade estadunidense: no inicio do século XX pais evangélicos fundamentalistas resolveram escolarizar suas crianças para evitar as ideias cientificas, que discordavam da leitura criacionista da Bíblia. Senhora Ministra, a fé cega não faz parte da tradição evangélica, Paulo fala no culto racional, que era necessário sabermos as razões da nossa fé (ROMANOS 12: 1, BIBLIA). Não tenha medo da escola, tema a falta da escola neste Brasil com índices de analfabetismo tão altos! O que precisa ser feito é incentivar as famílias a levarem seus filhos à Escola. Um bom exemplo é a Holanda: crianças e jovens estudantes faltosos, sem justificativa, os pais pagam multa pelas ausências de seus filhos.

A escolarização doméstica não resolveu os problemas da sociedade estadunidense, que continua desigual, racista e violenta. Nos Estados Unidos, há mais de 2 milhões de crianças em idade escolar fora da escola, “um dos principais motivos para a prática os estudos sobre o assunto, adere a essa nova modalidade de educação, conforme artigo da pesquisadora Carlota Boto (2018) da Universidade de São Paulo.E por falar em ideias científicas que questionam crenças arraigadas, Senhora Ministra, o livre exame da Bíblia e o principio da  liberdade intrínseco ao protestantismo proporcionou o desenvolvimento da ciência moderna. A oposição entre Ciência e Fé é algo descabido no mundo de hoje. Renomados cientistas, pensadores ou filósofos católicos e evangélicos não renegaram sua fé em virtude do estudo dos átomos, por do homeschooling é religioso”. São as minorias religiosas e étnicas que, de acordo com exemplo, ou outra descoberta cientifica. Os evangélicos não falharam diante da ciência, pelo contrário, os princípios evangélicos favoreceram o espírito investigativo.

Eis o testemunho eloquente de como a fé e a ciência não são excludentes: a Professora baiana Archiminia Barreto, era uma mulher negra, membro da Primeira Igreja Batista do Brasil, em 1910, quando da passagem do Cometa Halley no Brasil, não se juntou aos fanáticos alarmados, que pensavam que já era o fim do mundo. Ao contrário, a mestra batista escreveu um substancioso artigo no Jornal Batista analisando o Cometa como um fenômeno da natureza e que não trazia quaisquer sinais do apocalipse ou de maldição diabólica (SILVA,2017). Passado mais de um século, a atitude da professora e articulista batista pode trazer lições para a vossa atuação ministerial.

“Prudentes como as pombas e perspicazes como as serpentes” (MATEUS 10:16, BÍBLIA), um conselho bíblico que faria bem ao desempenho ministerial. Jamais uma ministra de estado, que tem a função e o desafio de atuar em politicas para a família, mulher e Direitos Humanos deveria aconselhar aos pais das meninas a fugirem do País. Senhora Ministra, as famílias e as meninas precisam de educação sexual para não se tornarem vítimas de delinquentes, ou da falsa propaganda da sociedade de consumo, que as transforma em objeto sexual. Educação sexual ministrada por professores competentes e famílias bem informadas, com certeza evitará a gravidez indesejada, a epidemia de mães adolescentes e crianças abandonadas, e, sobretudo, os índices elevados de feminicídio que grassam no Brasil. A saída pelo aeroporto é para covardes, sem nenhum sentimento de responsabilidade pelo Brasil.

Não esqueça, nunca, Senhora Ministra, a fala de um cristão “deve ser sim, sim, não, não e o que passar disso é obra satânica” (MATEUS, 5.37 BÍBLIA) eu e centenas de professores ficamos indignados com as mentiras do Kit Gay, atribuído a Pastora Damares e desmentido nas redes de Televisão. O governo da Senhora Ministra foi eleito com base em mentiras, mas se recuse a ser a portadora das inverdades, não cumpra o papel de boba da corte, que fala o que vem na cabeça e diverte as redes sociais e a imprensa ligeira. Assuma a dignidade do cargo com propostas consequentes, que realmente contribuam para a melhoria da educação e das relações sociais no País. Mantenha uma equipe de bons assessores, que conheçam a realidade brasileira, para além das noticias do whatsapp ou do grupinho pessoal ou partidário de seguidores.

Para evitar desgastes políticos na imagem do Brasil, não fale nada que não possa provar: aquela fala ou sermão que pronunciou antes de ser ministra, que os pais holandeses masturbam suas crianças pegou muito mal. A imprensa holandesa reagiu. O Telegraaf, publicou o texto “Ministra Damares conta fábulas sexuais sobre a Holanda”. Nos últimos quatro anos, tenho visitado a Holanda como pesquisadora, frequentei famílias, universidades e jamais presenciei algo parecido, muito menos o sexo livre no trem. Ao contrário, convivi com um povo disciplinado, respeitador e trabalhador, que cultiva jardins e mantém uma pontualidade calvinista nos serviços públicos.

Quanto aos traumas de infância, que V. Excelência carrega é de bom alvitre buscar ajuda profissional para se libertar da dor e da angústia, impostas por falsos pastores, “ lobos vestidos em pele de cordeiro”, os quais merecem ser punidos pelos delitos cometidos contra uma criança. Não se deixe vitimizar, lute como uma mulher, não faça da sua dor motivo de escárnio público. As virtuosas e sábias mulheres da Bíblia podem ser exemplos para V. Excelência: destaco a guerreira juíza Débora no Velho Testamento e a vigilante Maria a irmã de Lázaro, no Novo Testamento, que escolheu a melhor parte. A Bíblia é um livro de sabedoria e pode ser lido com outro olhar, além do dogmatismo.

Esclareço que não votei no atual Presidente da República, por discordar de suas propostas. Desde a campanha eleitoral, indignou-me a peça que mostrava dedos em ristes como armas, repetido por milhões de brasileiros, jovens e crianças como a ensinar-lhes que a violência está autorizada, num gesto tão simples… e o que me veio à mente foi a “Banalidade do Mal”, (ARENDT, 1999), a violência fascistoide ocorrida no século passado na Europa. A sociedade brasileira não precisa de mais armas letais, nósprecisamos, sim é de educação de qualidade, de justiça e inclusão social dos brasileiros historicamente excluídos, inclusive do direito básico de ter uma família. Quero participar do debate. Não me furtarei de cumprir minha tarefa como cidadã e professora comprometida com uma agenda democrática para resolver os graves problemas sociais do Brasil.

Com os melhores votos de profícuo trabalho a frente do Ministério Professora Doutora Elizete da Silva Militante da Escola e da Universidade Pública, de Qualidade e Democrática.

Professora Doutora Elizete Da Silva, professora de história da religião da UEFS-Bahia

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